Médicos retornam às atividades após 14 dias de paralisação

September 21, 2017

Mesmo sem nenhuma proposta financeira ter sido apresentada para o pagamento dos quatro meses de salários atrasados, os médicos voltaram ao trabalho

 

 

 

Os médicos da Fundação Vespasianense de Saúde (FVS) retornaram ao trabalho no último dia 6 de setembro, após 14 de paralisação. O corpo clínico divulgou nota informando que retornaria ao trabalho “apesar de nenhuma proposta financeira ter sido apresentada para quitação dos honorários atrasados. Nossa atitude se baseia no nosso compromisso social como médicos e em nosso dever histórico de promover o bem social, não deixando a população sem assistência. As discussões para a solução dos problemas ainda continuam.”

 

O motivo da paralisação dos médicos é o atraso no pagamento dos salários dos meses de abril, maio, junho e julho deste ano. A dívida da FVS – mantenedora do hospital – somente com o corpo clínico gira em torno de R$ 1 milhão, mas estima-se que a dívida total da FVS ultrapasse R$ 6 milhões. Para tentar um acordo e a população ter o atendimento normalizado no único hospital da cidade, diversas reuniões foram realizadas entre a Fundação Vespasianense de Saúde, a Prefeitura de Vespasiano, o Conselho Municipal de Saúde e represente dos médicos, mas até o fechamento desta edição nenhuma proposta foi formalizada para o pagamento dos salários atrasados.

 

De acordo com a pediatra Kátia Bueno há cerca de três anos o corpo clínico vem recebendo os salários ‘picados’. “O salário do mês de abril nos foi pago em agosto e apenas 30%. Não recebemos o mês de maio. Recebemos 55% do salário de junho (diluído em julho e agosto) e o mês julho não nos foi pago nem um real,” revela. Além dos honorários atrasados, os médicos reclamam repasses do SUS de outros anos. “Ainda está em aberto os repasses do SUS referente a 2015 (5 meses) e 2016 (4 meses). A Fundação já recebeu esse dinheiro e não nos repassou,” conta.

 

A pediatra contou ainda que gestão utiliza os honorários médicos para cobrir outros custos. “Eles tiram dos honorários médicos – inclusive privado, que é de direito, e isso é apropriação indébita – para arcar com a despesa do que tem de mais urgente naquele momento,” conta indignada a pediatra.

 

O ginecologista e obstetra Dr. Pinheiro, que atende em Vespasiano desde 1974 e somente no município já realizou 6 mil partos, diz que é um exemplo de médico sofrido no hospital. “Esse hospital presta um grande serviço à população e os custos operacionais são insignificantes para manter uma estrutura como aquela. Há 10 anos não aumentam seus custos. O hospital recebe de R$ 300 a R$ 400 por um parto ou cesaria. O médico recebe R$ 150 e o anestesista R$ 70. Estamos sendo humilhados, mas somos bons profissionais e que honram Vespasiano e Vespasiano precisam honrá-los,” desabafa.

 

A presidente da FVS, Edite Bueri Nassif, afirma que a crise financeira do hospital vem se arrastando há anos e que o débito são de diferentes fontes. “Estamos trabalhando no sentido de manter o hospital aberto e não privar a comunidade do atendimento médico, especialmente a população carente. Ela conta que atraso nos repasses do Estado (já são três meses e um valor mensal de R$ 100 mil) e o retardo com os contratos com o município vão acumulando o débito, mas que os valores repassados atualmente não suficientes para arcar com as despesas do hospital.

 

“À medida que recebemos as verbas, repassamos para os médicos. Mas eles querem um cronograma definitivo de pagamento e eu não tenho como providenciar porque se eu não receber com eu vou pagar? Entendo que o movimento é legitimo que toda a categoria tem o direito de reivindicar melhorias e a nossa instituição tem feito o possível para manter-se de portas abertas atendendo a população”.

 

Segundo Nassif, o montante maior da dívida da Fundação resulta de um valor bloqueado (estimado em R$ 500 mil), mas para desbloqueá-lo é necessário quitar todas as obrigações trabalhistas. Ela explica, ainda, que existe um programa de refinanciamento do governo federal isentando as instituições de juros e multas e com um prazo maior para fazer a quitação dos débitos. “Porem tem que pagar um atrasado e um atual e a gente tem que estudar muito bem isso porque se assinarmos esse compromisso e não dermos conta de cumprir a gente perde totalmente a possibilidade de novos acordos.”

 

O secretário municipal de Saúde, Fabiano Bretas, informou que a Prefeitura repassa mensalmente para a FVS R$ 170. “Esses repasses estão rigorosamente em dia e se há algum atraso na transferência do valor é porque a Fundação demora informar as prestações de contas”. Bretas explica que existe a possibilidade do valor dessa subvenção aumentar em mais R$ 100 mil, mas que a Prefeitura está analisando a situação financeira e jurídica para repassar mais essa quantia. Durante as reuniões, a prefeita Ilce Rocha informou que a Prefeitura de Vespasiano está disposta a ajudar a resolver essa questão, mas dentro da legalidade. “Eu indico em meu nome o subprocurador municipal, Rodrigo Faria, juntamente com o Conselho Municipal de Saúde, que entre em contato com o Ministério Público para resolver a questão para que o hospital volte a funcionar e os médicos possam receber seus honorários.”

 

Até o fechamento desta edição, o Conselho Municipal de Saúde protocolou um ofício no Ministério Público solicitando uma reunião para tentar resolver esse impasse e aguarda um posicionamento do órgão.

 

Nesses 14 dias de paralisação do atendimento médico, as pessoas que precisaram de atendimento tiveram que se direcionar até a UPA ou mesmo buscar atendimento em cidades vizinhas.

 

Alejandro Nasute levou o filho de 2 anos e 6 meses que estava tossindo bastante, mas não conseguiu atendimento no hospital. “Não tinha atendimento sequer para plano de saúde. Eu pago o dobro do valor pela consulta agendada e não consegui atendimento na cidade. Levei meu filho na UPA, que por sinal foi ágil e fiquei satisfeito com o atendimento de lá.”

 

Um senhor de 64 anos, que prefere não se identificar, estava com uma cirurgia de hérnia umbilical agendada para o dia 28 de agosto, quando recebeu uma ligação do da Prefeitura desmarcando-a. “Eu estava aguardando essa cirurgia há uns 6 meses. Fiz todos os exames pré-cirúrgico e o atendimento foi suspenso! Essa situação é revoltante e torço para que ela se resolva rápido, pois estou sentindo muitas dores e outras pessoas também precisam como eu.”

 

Flaviana Cândida conta que levou sua irmã Fabiana ao hospital com infecção intestinal, mas mal desceu do táxi e o porteiro foi avisando que os médicos estavam em greve. “Fomos para a UPA e após umas duas de espera, minha irmã conseguiu ser medicada.”

 

No dia 29 de agosto, Cleo Pinheiro também precisou de atendimento médico (com plano de saúde) do hospital, mas não conseguiu. “Meu marido desceu no carro e informou que eu havia torcido o pé, mas um funcionário do hospital disse que o raio x não funciona a noite e mesmo que funcionasse os médicos estavam em greve. Fomos para a UPA e a noite lá não em ortopedista. Eu fui avaliada por um cirurgião geral, que me ajudou dentro da sua competência técnica. Tomei uma injeção, pois estava sentindo muitas dores, e fui para Lagoa Santa onde consegui atendimento pelo SUS e em momento fui questionada por ser de outra cidade.”

 

Para Cleo, tem que se analisar os dois lados dessa paralisação. “Ninguém pode trabalhar sem recebe os salários. Com ou sem paralisação a população ficaria prejudicada do mesmo jeito porque na UPA não tem ortopedista a noite. Isso pra mim é inadmissível.”

 

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